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Uma conversa no hospital

Atualizado: 6 de jul.


Estou acompanhando meu filho Pedro, que está internado no hospital desde segunda (mas já vai ter alta, se Deus quiser).


Fui reconhecida por uma enfermeira, que votou em mim para vereadora e deputada.

Outras vieram conversar comigo, falar que eram petistas e lulistas.


Nisso, uma das trabalhadoras veio dizer que só gente ignorante era de esquerda. Assim, do nada. Ninguém a chamou para a conversa. Mas ela fez questão de vir ofender a mim e às colegas.


No momento, me irritei. Respondi que era PhD e mestra em direito, especialista em transtorno do espectro autista, professora da UFPE e que achava que o adjetivo ignorante não se aplicava.


De imediato, me arrependi de minha resposta e voltei para o quarto.


Óbvio que fiquei chateada e ofendida, mas não é assim que se trata uma trabalhadora - mesmo que errada e absolutamente inconveniente.


Pouco tempo depois, ela bateu na porta do quarto e pediu licença:

“Desculpe se a senhora se sentiu ofendida, não fiz por mal”.


Respondi com calma e firmeza que não tinha “me sentido” ofendida, mas que eu tinha sido ofendida por ela. Que eu não estava numa loja ou num restaurante, em que eu poderia dar as costas e ir embora. Estava num hospital, com meu filho internado e era obrigada a ouvir aquilo.


E que o mais grave era que ela havia ofendido muito mais mulheres por quem ela deveria sentir gratidão. Trabalhadoras da saúde, sindicalistas, feministas, de esquerda, que há muitas décadas vinham lutando com afinco, enfrentando várias dificuldades e fazendo sacrifícios em suas vidas para que hoje ela tivesse uma jornada de trabalho digna, piso salarial, 13o salário, FGTS, para que ela não sofresse assédio moral e sexual no trabalho, para que ela não usasse um uniforme com conotação sexual, para que ela tivesse adicionais de insalubridade, noturno, hora extra, para que ela fosse respeitada apenas pelo próprio trabalho e competência.


Que, caso ela fosse mãe, eram mulheres de esquerda e feministas que lutavam contra a divisão sexual do trabalho e contra a naturalização da sobrecarga do trabalho materno.


Que nada disso tinha sido conquistado por bondade dos donos do hospital, pela generosidade da mão invisível do mercado ou por princípios humanistas do sistema capitalista.


E então, para minha surpresa, ela começou a chorar.


Perguntei por qual razão ela estava chorando e ela disse que de vergonha.


Me contou um pouco sobre sua vida, sobre a sua família, e falou que estava sinceramente arrependida.


Me pediu um abraço e eu ainda estava estupefata com a reação dela.

Àquela altura, Pedro, que estava no banheiro, certamente ouvindo tudo, já deveria estar enrolando para abrir a porta e voltar ao quarto.


Nos abraçamos.


Um abraço de duas mulheres trabalhadoras, que se sustentam com o fruto do próprio trabalho, que não vivem de renda ou herança, se encontrando e reconhecendo na própria consciência de classe.


PS. Pedro teve alta e passa super bem.

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